Quando era estudante de Teologia, tive um professor de Novo Testamento muito erudito e excessivamente criterioso nas avaliações de seus alunos. Certa vez ele nos deu um tema a ser desenvolvido em 15 dias e o título era "Fé e Razão." Apesar de ter à época apenas 19 anos, eu tinha uma vida cheia de compromissos. Estudava na parte da manhã, trabalhava no período da tarde e cursava teologia à noite. Deixei a tarefa para os últimos dois dias. Na hora de passar as idéias para o papel, percebi que tinha procrastinado demais o início da tarefa. Mas mesmo assim, comecei a obra. Primeira coisa que fiz foi discordar da ordem do título: "fé e razão" não me pareceu lógico. Então, justifiquei e passei a transcorrer. Não acredito que a fé seja a primeira das virtudes humanas quando comparada com a razão. Basta observarmos a sequência cadencial do desenvolvimento de uma criança e veremos que quando abrimos os olhos, logo depois de nascidos, passamos a explorar o mundo querendo entendê-lo e isso não o fazemos com a fé e sim com a razão. Dos olhares, passamos a querer sentir através do tato e ainda assim é a nossa razão que nos compele a saber como é o objeto de nossa observação. Quando surge a fala as primeiras perguntas são: o que?,Por que? E para que? Só depois que nos deparamos com fatos, coisas ou circunstâncias que a nossa curiosidade fica sem respostas é que a fé tem que brotar. Apenas quando as respostas existentes para nossas indagações não nos satisfazem, somos projetados a uma virtude que nos consola com a afirmação de que Deus reservou para si alguns segredos que só à medida que evoluímos espiritualmente, seremos esclarecidos sobre a verdade. Na data marcada, sem a pretensão de nota, se quer razoável, entreguei o trabalho ao professor. Chegado o dia de nos devolver a tarefa corrigida e a nota, o professor se posicionou no centro da sala e disse, "no meu critério de avaliação dos alunos levo em consideração o seguinte: dou 8 ao aluno que faz o que eu pedi; dou 9 ao que se esfoça e faz um pouco mais do que o solicitado, deste que dentro do tema, e só dou a nota 10 ao aluno que me ensina alguma coisa com a tarefa que desenvolveu." Foi assim que assustado e temendo que a minha, seria a pior nota, tirei 10. A Fé é a última instância do conhecimento humano, não por ser ou estar distante, mas porque antes dela o clamor da razão nos ocupa por demais, para que entendamos pormenorizadamente tudo ao nosso redor. Além disso, acredito que a Razão é o alicérce firme da fé construtiva.
This post has 2 feedbacks awaiting moderation...